Filmes para quem gostou de Stranger Things

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Aproveitando que todo mundo está na onda Stranger Things, como cresci assistindo esse tipo de filme, resolvi preparar uma lista de filmes do final dos anos 70, anos 80 e começo dos anos 90 (também conhecida como a melhor época para se crescer em todos os tempos) que entregam a mesma experiência. Optei por deixar de fora o E.T., o Extra-terrestre porque todo mundo conhece esse filme. Se não conhece, bem, ganhou um filme extra pra assistir.

Sem ordem específica, aí vão eles:

O Voo do Navegador

Short Circuit: O Incrível Robô

Os Heróis Não Têm Idade

Conta Comigo

A Hora do Lobisomem

Cemitério Maldito

Os Goonies

Gremlins

Starman – O Homem das Estrelas

Contatos Imediatos do Terceiro Grau

Tubarão

Viagem ao Mundo dos Sonhos

Halloween

Vidas Sem Rumo

Clube dos Cinco

O Enigma de Outro Mundo

 

 

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Dark Souls e D&D

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Quem me acompanha no Facebook sabe que ando um tanto quanto obcecado por um certo jogo de videogame chamado Dark Souls. Para quem não conhece, Dark Souls é um RPG de fantasia medieval puxando um pouco para o dark fantasy, e é um jogo um tanto quanto polêmico por causa da alta dificuldade de desafio que impõe aos jogadores.

Mas daí eu parei pra pensar e me dei conta que Dark Souls é muito, mas muito parecido com um D&D old school, e a partir dessa constatação, concluí o motivo pelo qual gosto tanto desse jogo.

Dark Souls utiliza, dentro dessa ideia de D&D old school, parâmetros muito semelhantes tanto no que diz respeito às mecânicas que o jogo oferece quanto na ambientação.

1. o cenário é perigoso e não existe tutorial. Se existe um fato inescapável a respeito de Dark Souls é que teu personagem vai morrer. Várias vezes. Lagos envenenados, armadilhas, monstros, barris explosivos arremessados por inimigos, emboscadas em esquinas e pontos fora do ângulo de visão, chefes que te matam com um golpe… esses são apenas alguns exemplos de como Dark Souls vai te matar. Além disso, o jogador corre o risco, quer dizer, não corre o risco, ele certamente irá enfrentar e se deparar com monstros que estão muito acima do seu nível.

Por outro lado, as instruções do jogo são mínimas. A área tutorial é um “te vira”. Não existe um manual, não existe um mapa, não existe nada. Apenas o desafio. Explore, vá, conheça o mundo. E morra nesse meio tempo.

2. o jogo depende mais da habilidade do jogador do que das estatísticas do personagem. Quando comecei a jogar Dark Souls III, meu personagem tinha um ataque forte, um ataque rápido, bloqueio com escudo e defesa com escudo. Hoje, depois de 30% do jogo, meu personagem tem um ataque forte, um ataque rápido, bloqueio com escudo e defesa com escudo. Ou seja, não desbloqueou combos, poderes especiais, nada. Agora, o Fabiano que começou o jogo é muito diferente do Fabiano que joga hoje. Aprendi o tempo e alcance dos golpes da minha espada. Aprendi quanto tempo meu personagem precisa para recuperar o fôlego depois de bloquear golpes de um esqueleto gigante. Aprendi o tempo para bloquear um golpe com o meu escudo e desferir um crítico.

3. suas ações têm consequências. Matou um mercador sem querer? Azar, assim é a vida. O cara não vai voltar, tu não pode carregar um jogo anterior e fazer ele voltar. Pense antes de agir porque depois não adianta chorar.

4. explore! O mundo é cheio de áreas secretas, paredes ilusórias, locais inteiros que podem ser ignorados por jogadores menos criteriosos. Isso faz a exploração em Dark Souls muito semelhante à do D&D old school, exigindo muito do jogador.

Já o cenário é apresentado de forma muito semelhante à tradicional megadungeon. Apesar de muitas vezes o jogo se passar em uma floresta ou em uma cidade, ainda assim a estrutura de uma megadungeon se mantém:

1. corredores determinados: diferentemente de jogos como Skyrim, que te dão 360º de área para explorar entre um local e outro, Dark Souls te oferece uma experiência mais restrita, mas muito mais complexa, apresentando múltiplas formas de se chegar a um mesmo destino, áreas secretas, atalhos que permitem que o jogador atravesse boa parte de uma determinada área, muito semelhante à lendária dungeon do Castelo Greyhawk, com seus elevadores, portas que só abrem por um lado, e áreas que aparentemente se tornam irrelevantes voltam a ter importância.

2. a dungeon é “viva”: megadungeons em geral não se mantêm estáticas. Monstros reaparecem, se reorganizam, aparecem em encontros aleatórios. Dark Souls oferece uma mecânica semelhante, e o gatilho é “descansar na fogueira”. Enquanto o personagem descansa na fogueira, a dungeon reseta, monstros reaparecem, de modo que o ato de “limpar” a dungeon é uma façanha praticamente impossível de ser conquistada.

3. naturalismo gygaxiano: no D&D old school, não existe paridade entre monstros e personagens. No D&D, monstros conseguem abrir portas que são trancadas para personagens, conseguem ver no escuro, e têm uma noção a respeito dos personagens que não ocorre de forma recíproca. Como o jogador assume o papel de um morto-vivo, ele não morre definitivamente, retornando à útima fogueira como uma maldição em looping infinito, que não oferece um descanso final até que a sua busca seja concluída.

4. níveis, subníveis e temas: em Dark Souls, cada nível da megadungeon tem um tema específico: tumba, lava, floresta, cidade… semelhante ao D&D.

5. desafio e cooperação: assim como no princípio do D&D, a grande campanha compartilhada de Dark Souls é experimentada por um grande grupo de jogadores, que deixam mensagens no chão, avisando novatos, ou até se oferecem para serem convocados para o mundo de um jogador com dificuldades para auxílio.

O grande ponto é que Dark Souls, assim como uma megadungeon, não foi feito para ser fácil, mas sim para ser um desafio à habilidade, persistência, criatividade e capacidade do jogador. Dark Souls, assim como o D&D old school, não perdoa um jogador despreparado ou desinteressado. E é por isso que o considero o melhor jogo das últimas décadas.

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Lamestain: minha playlist obsessiva de rock alternativo dos anos 90

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Gosto de categorizar playlists em três tipos: obsessivas, semi-obsessivas e fuck this shit.

As obsessivas têm um propósito, as músicas selecionadas devem ser escutadas em uma ordem determinada, não no aleatório, elas contam uma história, têm altos, baixos, mudanças de humor e zonas de conforto e de desconforto. Uma playlist obsessiva não tem o objetivo de ser completa; tão importante quanto as músicas que se opta por colocar são aquelas que se opta por deixar de fora.

As semi-obsessivas têm critérios mais soltos, geralmente orbitam um determinado tema, mas a sua construção é mais livre, em que a sequência das músicas não importa, pois foram feitas para serem escutadas no aleatório.

As fuck this shit são totalmente sem critério, cabendo na mesma sequência Molejo, Slayer e, sei lá, Depeche Mode.

No caso, quero me deter às obsessivas, em particular à minha playlist obsessiva de rock alternativo dos anos 90. Ao escolher as músicas dessa playlist, estabeleci os seguintes objetivos: não repetir artistas, ter 30 músicas e manter o limite de tempo de duas horas. No caso, o último critério bateu na trave, porque a playlist fechou em 122 minutos.

O nome da playlist, Lamestain, vem de uma piada interna do grunge. Em novembro de 1992, no auge da explosão do grunge e do rock alternativo dos anos 90, um repórter do New York Times ligou pra Sub Pop, principal gravadora da época, para entrevistar o dono. Ele foi atendido pela recepcionista, que mentiu que era a dona da Sub Pop. Mas não foi só isso que ela inventou. Questionada sobre gírias grunge, a Megan inventou na hora toda uma lista de palavras com seus significados, só para sacanear o repórter.

Dentre elas estava Lamestain, que significa “perdedor”. A matéria foi publicada e até hoje é alvo de piadas internas.

Mas, mais importante que tudo isso, eis as músicas da playlist e o porquê de eu ter escolhido cada uma delas:

1. Would? — Alice in Chains (Dirt)

Pra mim, Would? é a música que melhor define o rock alternativo dos anos 90. Lenta, pesada, mas extremamente pop. Se alguém me pedisse para mostrar o que é grunge em uma música, com certeza a minha escolha seria essa.

2. Nearly Lost You — Screaming Trees (Sweet Oblivion)

Essa é daquelas músicas excelentes mas que caíram no esquecimento (assim como a banda, também excelente e também esquecida). Ela mantém o clima grunge clássico iniciado por Would?, mas também é bastante acessível.

3. Hunger Strike — Temple of the Dog (Temple of the Dog)

A melhor música dos anos 90, sem dúvida. A junção do Soundgarden com o que sobrou do Mother Love Bone resultou em um disco incrível, e essa música ainda conta com a participação do Eddie Vedder, responsável por transformar o resto do MLB em Pearl Jam.

4. Diet Pill — L7 (Bricks are Heavy)

É aqui que o desconforto começa. Diferentemente do hard rock acessível das três primeiras músicas, Diet Pill é um sludge metal como deve ser: lento, extremamente pesado e com vocais chapados.

5. Rehab Doll — Green River (Dry as a Bone/Rehab Doll)

Depois do desconforto inicial de Diet Pill, Rehab Doll é a música que faz o ouvinte iniciante a questionar o que está escutando. Tosca, pesada e lenta, esse é o grande clássico da Green River, a banda que iniciou o que depois veio a ser conhecido como o grunge.

6. Night Goat — Melvins (Houdini)

Melvins é uma banda incrível, uma das mais importantes do rock alternativo noventista. Na época do Houdini, seu grande clássico, o Melvins ainda adotava uma postura mais conservadora em suas músicas (hoje a banda conta com dois bateristas, que criam a parede sonora que dá sustentação aos riffs do Buzz Osborne), lembrando um pouco o Black Sabbath do final dos anos 60.

7. Outshined — Soundgarden (Badmotorfinger)

Depois de três músicas relativamente difíceis, uma mais tranquila, da grande banda Soundgarden. Mas, ainda assim, Outshined é pesada e lenta, mantendo o clima sludge das anteriores.

8. Mouth Breather — The Jesus Lizard (Goat)

The Jesus Lizard tem uma pegada mais rock do que Soundgarden, mas com um vocal nervoso, no bom sentido.

9. Lose — Guntruck (Push)

Guntruck é uma daquelas bandas incríveis mas que ninguém conhece. Um rockão sincero e pesado, como deve ser tocado. E Lose é uma música incrível, incrível.

10. Gentlemen — The Afghan Whigs (Gentlemen)

Outra grande banda incrível. The Afghan Whigs tem uma carreira muito sólida e nunca caíram na zona de conforto. Gentlemen é seu disco mais clássico, de quando estavam no auge da criatividade.

11. Aneurysm — Nirvana (Incesticide)

É complicado não ser óbvio ao escolher uma música do Nirvana para se colocar em uma playlist. Optei por Aneurysm não só por ser a última música do disco mais subestimado da carreira da banda, mas também por ser uma música incrível e que muitas vezes acaba escapando do radar.

12. The Scratch — 7 Year Bitch (Viva Zapata!)

7 Year Bitch é uma banda divertida, sem grandes pretensões ou desafios artísticos. Mas nem tudo precisa tirar o ouvinte da zona de conforto, às vezes um rock pesado é tudo o que se precisa para ser feliz.

13. Mr. Liberty (With Morals) — Malfunkshun (Return to Olympus)

Antes de existir o grunge, antes de existir o rock alternativo, antes de existir os anos noventa, existia o Malfunkshun. Essa é a banda que começou tudo. Mesmo com uma pegada glam, as raízes do que viria a ser o 90’s Alt Rock estão aí.

14. Wicked Garden — Stone Temple Pilots (Core)

Resisti bravamente à obviedade de escolher Plush.

15. Burn a Hole — Skin Yard (10000 Smiling Knuckles)

O Skin Yard se enquadra entre o Green River e o Guntruck: é uma das bandas que ajudou a definir o que viria a ser o grunge, ao mesmo tempo em que é absurdamente incrível e que merece ser ouvida.

16. Touch Me I’m Sick — Mudhoney (Superfuzz Bigmuff With Singles)

Touch Me I’m Sick não é uma música, é uma instituição do grunge, assim como o Mudhoney. Está tudo ali, pedais fuzz, gritos, anarquia e caos. O Mudhoney representa o outro lado da moeda grunge em comparação com o Melvins. Enquanto este é lento, inevitável e controlado, o Mudhoney é rápido, destruidor e caótico.

17. Killing in the Name — Rage Against The Machine (Rage Against The Machine)

Dando um tempo no grunge, pensei em um intervalo puxando para um lado funk o’metal, e Killing in the Name é o grande clássico desse subgênero do rock alternativo dos anos 90.

18. My Name is Mud — Primus (Pork Soda)

Essa música é muito estranha, mas muito original. Assim como tudo o que o Primus faz.

19. Stone Cold Bush — Red Hot Chili Peppers (Mother’s Milk)

Quando pensei em qual música do Chili Peppers colocar, tinha uma certeza: seria do Blood Sugar Sex Magik para trás, porque o grande defeito do RHCP atual é que não fazem mais músicas porrada a la Suck My Kiss… e Stone Cold Bush. No caso, Stone Cold Bush, além de pesada, tem um suíngue que falta em Suck My Kiss, e por isso a escolhi.

20. Sabotage — Beastie Boys (Ill Communication)

Beastie Boys é uma banda incrível, e Sabotage representa o ápice do crossover rap-hardcore que eles sempre apresentaram.

21. Crane’s Café — Tad (8-way Santa)

Tad é outra banda clássica dos primórdios do grunge. Puxando para uma veia mais rock and roll, Crane’s Café é uma música muito divertida, provavelmente a mais feel good desta playlist.

22. Cannibal — Scratch Acid (The Greatest Gift)

Essa música parece que foi gravada de trás pra frente e depois invertida, lembrando um pouco o estilo do Man From Another Place, do Twin Peaks. Sim, é muito estranha.

23. I Don’t Know Anything — Mad Season (Above)

O Mad Season foi uma superbanda do grunge, misturando membros do Alice in Chains, Soundgarden e Screaming Trees. O som deles era bem diferente do resto, puxando mais para um clima acústico e depressivo. Essa é a música mais pesada da banda.

24. Drown — Smashing Pumpkins (Rotten Apples)

Smashing Pumpkins quando é uma explosão de raiva é muito bom, mas quando é uma apatia depressiva é incrível. E é por isso que escolhi Drown, uma das músicas mais depressivas da banda.

25. The Wagon — Dinosaur Jr. (Green Mind)

Gosto muito, mas muito mesmo, de Dinosaur Jr. Gosto do vocal do J. Mascis, com sua guitarra powered by Big Muff, dos vocais do Lou Barlow e da bateria do Murph. E essa música sintetiza tudo o que a banda faz de melhor.

26. Jane Says — Jane’s Addiction (Nothing Shocking)

Essa é uma música incrível, daquelas de levantar o espírito e cantar todo mundo junto abraçado. Mas ela está aqui cumprindo duas funções, e a segunda é preparar o ouvinte para o inferno das duas próximas músicas.

27. Death Valley ’69 — Sonic Youth (Bad Moon Rising)

Essa é uma das músicas mais difíceis desta playlist, e ela é o make it or break it do ouvinte. Macabra, lenta e barulhenta, Death Valley ’69 vai criar uma opinião na cabeça do ouvinte. Sabe-se lá qual.

28. Ariel — Babes in Toyland (Nemesisters)

Se Death Valley ’69 complicou a vida do ouvinte, Ariel tem o objetivo de torná-la um inferno. A essa altura, já se espera uma maturidade auditiva, depois de tudo o que já se mostrou, e Ariel é o teste definitivo disso.

29. State of Love and Trust — Pearl Jam (Live on Ten Legs)

Essa música é a recompensa para quem sobreviveu às duas anteriores. Divertida e irresponsável, Sate of Love and Trust foi feita para ser ouvida nas versões ao vivo. Representa também um pouco da loucura da música daquela época, porque é uma feel good music que fala de esquizofrenia e suicídio.

30. Chloe Dancer/Crown of Thorns — Mother Love Bone (Apple)

Para acabar, uma balada épica de 9 minutos, porque tudo acaba em morte, assim como o Mother Love Bone.

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Holocausto Canibal

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Eu estava determinado a não assistir Holocausto Canibal quando passou no Fantaspoa de 2006. Então, na quinta feira eu fui até a Casa de Cultura Mário Quintana pra ser entrevistado por uma mestranda em Educação que estava fazendo a sua dissertação sobre leitores de Tolkien. A entrevista acabou e eu olhei no relógio: 14:55.

Daí, não sei porque, me passou pela cabeça “Bah, daqui a 5 minutos vai ter uma sessão do Holocausto Canibal ali no Santander… eu consigo ver o cinema daqui, ó!”

Pois quando eu vi, eu já tava com o ingresso na mão, entrando no cofre antigo do Santander, reformado e transformado em uma sala de cinema.

Dois reais o ingresso.

Bom, primeiro eu vou falar um pouco do filme em si, pra depois falar da sessão.

O Holocausto Canibal é uma produção de 1980, dirigida pelo italiano Ruggero Deodato, e custou em torno de US$ 100.000,00 e, segundo o diretor, arrecadou mais de US$ 200.000.000,00 desde sua estreia, tornando-o o segundo filme mais rentável de 1980, atrás apenas de O Império Contra-ataca.

A trama é muito parecida com a da Bruxa de Blair. Ou melhor, a trama da Bruxa de Blair é muito parecida com a do Holocausto Canibal: um grupo de documentaristas ingressam na floresta amazônica, mais precisamente na área conhecida como Inferno Verde, para fazer um filme, e desaparecem. Meses depois, uma outra equipe é enviada para tentar resgatá-los e encontram os rolos de filme.

É interessante de se perceber as diferentes abordagens das duas equipes, bem como os resultados dessas abordagens. A equipe de resgate utilizou meios diplomáticos, pacíficos, pra se comuicar com uma das tribos canibais. Enquanto isso, a equipe anterior, a de filmagem, utilizou da brutalidade e da imposição moral por força do medo. De resultado, enquanto a primeira teve um contato tranquilo com a tribo, participou de rituais e ganhou presentes (os rolos do filme), a segunda recebeu de volta a brutalidade, sendo massacrada pelos canibais.

O filme é um espetáculo de carnificina e horror. A cena mais light é quando os cineastas homens (no grupo tinha apenas uma mulher) estupram uma índia, que depois é encontrada empalada (ó a foto ali em cima). De troco, a tribo canibal sequestra a mulher do grupo, a estupra em massa e depois a decapitam.

O filme gerou muita controvérsia, sendo até considerado como um filme snuff, devido ao realismo e à brutalidade mostrada. Uma semana depois da estreia, o Ruggero Deodato foi preso, sob alegações de que um dos atores efetivamente morreu na frente da câmera e de que a cena da empalação foi real. Pra piorar a situação do diretor, os atores assinaram um contrato que os impedia de atuar em produções por um ano, a contar da estreia do Holocausto Canibal. O Ruggero acabou provando sua inocência, mas em 1993, durante uma comic-fair em Birmingham, as autoridades confiscaram o filme, sob alegações de que o ator Perry Pirkanen fora drogado e que os aborígenes haviam sido autorizados a mutilá-lo como preferissem.

Além da violência gráfica do filme, boa parte da controvérsia foi gerada devido às mortes gratuitas de diversos animais no decorrer do filme:

– Um coatimundi foi morto e estripado;
– Uma tartaruga foi decapitada, desmembrada, estripada e assada;
– Uma cobra foi picotada;
– Uma aranha foi esmagada;
– Um sagui é capturado e, enquanto se debate, tem o tampão do crânio cortado com uma machadinha e seu cérebro é comido;
– Um porco é chutado e depois morto com um tiro de rifle na cabeça.

Segundo o IMDb, o Holocausto Canibal ainda encontra-se banido e censurado em diversos países:

País___________Status_________Versão
Islândia________Banido________Todas as versões
Alemanha______Banido________Versão sem censura
Malásia________Banido________Todas as versões
N. Zelândia_____Banido________Todas as versões
Filipinas_______Banido_________Todas as versões
Singapura______Banido________Todas as versões
África do Sul____Censurado_____Versão sem censura
Inglaterra______Banido_________Versão sem censura

Países que anteriormente baniram o Holocausto Canibal:

País___________Status___________Tempo de banimento___Versão
Austrália_______Desbanido_______1984–2005___________Sem cortes
Finlândia_______Desbanido_______1984–2001__________Sem cortes
Irlanda_________Desbanido_______1984-????___________Sem cortes
Itália___________Desbanido_______1980–1984__________Sem cortes
Noruega________Desbanido_______1984–2005__________Sem cortes
Inglaterra_______Desbanido_______1984–2001____Severamente censurado
África do Sul____Censurado_______198?-????______Severamente censurado
Alemanha_______N/A____________1984–1990_____________N/A

Agora deixa eu falar um pouco da sessão em si. A sessão tava lotada, óbvio. O Holocausto Canibal era a grande estrela do Festival de Cinema Fantástico. A sessão que passaria às 19 horas então, nem se fala, porque sessões comentadas sempre lotam. Mas uma coisa me chamou a atenção, a respeito do público. Eu esperava ver geeks, nerds e “pessoas que andam por aí com livros debaixo do braço”, como conceitua a Dani.

Mas não. O grosso do povo eram velhos. Velhos tipo 70 anos.

Foi uma experiência única, essa sessão. O povo estava visivelmente desconfortável durante o filme. Inquietos. Eu mesmo estava inquieto. Ficava o tempo inteiro tentando me acomodar na poltrona. O clima pesou mesmo. Na cena da tartaruga, ouvi soluços de choro, tosses, engasgos e um “uuuuhgggg!”, de vômito. Mas acho que foi fake, já que não teve cheiro. O Ruggero quer te chocar mesmo. A trilha sonora do filme é absurdamente bizarra. O volume e o noise da música aumentam absurdamente nas cenas mais violentas, pra incomodar mesmo. Eu ficava encolhido na poltrona, abismado com o estupro visual e sonoro que é o filme.

A sessão acabou, as luzes se acenderam. Em vez do tradicional blá blá blá de saída de cinema, todo mundo saiu quieto, cabisbaixo, como se estivesse carregando um bloco de concreto nas costas, só pensando no que acabaram de assistir.

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1994

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Como falei no final do post 1993, 1994 foi um ano bizarríssimo também, como todo décimo-sexto ano da vida de qualquer um.

Logo no comecinho do ano, eu conheci um cara. Ok, isso soou gay. Mas enfim, esse cara se tornou o meu melhor amigo, e é até hoje. O Charles, companheirão de muitas indiadas e explorações nos mundos de Dungeons & Dragons.

Mas naquela época não jogávamos RPG. Ainda, pois 1994 foi o ano em que eu comecei a jogar RPG. Mas tudo a seu tempo.

Era o casamento da Cristiane, vizinha da praia, e o Charles era meio que aparentado dela e, ao mesmo tempo e de uma forma bizarra, semi-aparentado da minha então ex-major crush e atual namorada na época. Putz, a gente ficou amigo meio que automaticamente. A gente passava o maior tempo do universo jogando video games e vendo filmes antigos de terror.

Como todo mundo sabe, eu faço aniversário em janeiro. No dia do meu aniversário eu fui na casa do Charles na praia (ele morava naquele cu de mundo na época) e conheci dois grandes amigos dele que se tornaram grandes amigos meus também: o Ewerton e o Helder. Meu dia estava perfeito. Quatro nerds reunidos falando de video games, filmes de terror e outras coisas foda.

Quando chega a noite, chega a minha namorada, vinda de Porto Alegre e me dá um pé na bunda. Na época eu meio que não entendia direito como relacionamentos funcionavam e tinha problemas sentimentais. Não, eu não era um emo, não, não chorei que nem uma guriazinha. Foi mais um “É? Tá, que que eu posso fazer?” Acho que ela ficou meio chateada comigo por causa disso. Acabamos ficando durante o carnaval, mas foi só uma vez e foi definitivamente errado.

Fim do verão, volta pra Porto Alegre, último ano do segundo grau. Eu estive meio perdido das idéias nesse ano, too much rebel spirit, sacomé.

Eu tava indo relativamente mal no colégio naquele ano, eu odiava tudo e todos. Com exceção de física, matéria que eu estava indo realmente mal. Não queria saber de estudar, não estava nem aí. Eu tinha minha guitarra, meu computador, meus livros e meus filmes de terror e era isso o que importava.

Daí, em abril, POW: meu ídolo da adolescência, a razão de eu esmurrar acordes em minha guitarra bagaceira, resolve meter uma bala na cabeça. Kurt Cobain já era e, com ele, o Nirvana. Eu não lembro ao certo de como me senti quando a Cristiane (aquela que casou) me contou isso no Shopping Praia de Belas. Faz tempo pra caralho, mas lembro que aquilo me afetou e muito.

Um dia, em casa, tocando guitarra, resolvi mudar. Não MUDAR, só mudar. Cortar o cabelo que eu cultivava como se fosse um monstro desde 1991. Peguei uma revista de rock onde tinha uma foto do Sid Vicious e levei até a Video Hair. O poser que me atendeu falou, com um biquinho: “Tem certeza?” “Toca ficha”, respondi.

Mudanças visuais radicais são estranhas. Eu sentia que todo mundo olhava pra mim de uma forma estranha. Quando cheguei em casa, minha mãe falou: “Por que ele colocou gel com purpurina no teu cabelo?” e eu, atônito, respondi “QUÊ?”

Pois é, o filho da puta do cara da Video Hair resolveu me sacanear e eu nem percebi. Daí eu descobri porque todo mundo me olhava na rua. Tomei banho pra tentar tirar a purpurina, mas não saiu muito. E me toquei pra praia.

Quando o Charles me viu, perguntou “Por que tu pediu pra ele cortar o teu cabelo igual ao Fernando Collor de Mello? E… por que diabos tem purpurina nele?”

Cabelereiro filho da puta. Levei quatro dias tentando tirar os resíduos de purpurina do cabelo.

De volta às aulas, encontrei um cara estranho no colégio, era mais velho, usava barba e vivia de terno. Sim, ele era aluno. Ele andava pra lá e pra cá com uns livrinhos estranhos, folheava pra um lado, folheava pro outro. Uma vez eu cheguei pra conversar com ele, pegávamos o mesmo ônibus pra ir pra casa. Eram os livros jogos da coleção Aventuras Fantásticas. Perguntei pra ele onde ele tinha conseguido aqueles livros e se aqueles eram livros de RPG.

Ele me respondeu “não, mas lá onde eu comprei esses tem vários livros de RPG.” Daí ele me falou duas das palavras mais importantes que eu ouvi na minha vida (vou colocá-las em negrito até): Planeta Proibido. Depois de experimentar com uns livros-jogos, entrei de cabeça no mundo do RPG com a velha caixa preta do Dungeons & Dragons, comprada por 45 URV na Superfestas.

Quando fui pra praia, eu e o Charles aprendemos, na raça, a jogar. A gente criava várias aventuras, adaptava dos livrinhos Aventuras Fantásticas e fazíamos miséria com o jogo. A gente mestrava em dupla pra três amigos nossos.

Lá pelo meio de maio, meu colégio ficou chocado com a morte de quatro alunos num acidente de carro na Nilo Peçanha. Eram todos da minha sala de aula mas, no auge do meu autismo anti-social, não conhecia nenhum. Fiquei meio “whatever”.

Nessa mesma época o Charles me ligou, dizendo que tinha visto um filme foda e que eu deveria assistir ou morrer: Pulp Fiction. Assisti e concordo com a minha Dani quando ela fala que é o Casablanca da nossa geração.

Chegaram as férias de junho e, com elas, a Copa do Mundo. Eu cagava pra futebol naquela época. Era Colorado só por dizer, não acompanhava, não sabia nome de jogador, nem nada. Mas depois do Tetra, eu passei a acompanhar de perto o meu time (péssimo timing, devo dizer, já que em 96, 96 e 97, só deu Grêmio em todos os lugares).

Mais ou menos nessa época eu tava pegando uma colega do Yázigi, minha escola de inglês. Ela era apaixonada por mim, mas eu não tava nem aí pra ela, só queria ter alguém pra agarrar sem ter que ficar saindo à noite e gastando dinheiro pra isso. Hoje eu me arrependo da forma como agi com ela, ela realmente gostava de mim e eu agi como um completo idiota, especialmente quando fiquei enrolando ela quando decidi não ficar mais com ela, até que culminou no ponto em que eu deixei ela chorando no pátio do Yázigi. Mas eu era um guri ainda e eu não sabia como funcionavam os relacionamentos. Mas de qualquer forma, ela era uma guria legal e hoje eu aprendi que um relacionamento, mesmo que informal, deve ser terminado de uma forma decente (eu fiz isso com uma pegadinha em 2006, mas ela me bateu, ou seja, não sei se realmente vale a pena o trabalho de chamar a guria pra conversar e etc. pra dar uma merda dessas).

Eu estava cada vez mais punk. Meu cabelo Fernando Vicious de Mello foi raspado. Andava sempre de coturnos, calças camufladas e camiseta do Agnostic Front. Daí eu descobri uma banda foda: Raimundos. Sim, naquela época eles eram foda. Pornograficamente foda.

Quando descobri que eles lançaram um CD, fiquei ligando pras lojas, mas ninguém conhecia. “Ô fulano, tem o CD do tal do Raimundo?”, falou o atendente das Lojas Colombo na época.

Eventualmente comprei o CD e eles vieram a Porto Alegre pra tocar no Opinião. Show foda. O pogo comendo solto. Tinha um skinhead lá, gritando coisas como “Vão todo mundo se foder! Quero que vocês morram!” e coisas do tipo. Na saída do show ele continuava gritando e eu mandei meio que um “Ah, vai se foder!” ou algo que o valha.

E ele me viu.

Não fez nada, só olhou pra mim. E eu me caguei de medo.

No dia seguinte eu tinha prova de química. Tirei dez, morrendo de sono e de dor das cotoveladas do mosh pit.

Um tempinho depois, a grande notícia: show dos Ramones em Porto Alegre, com abertura dos Raimundos e do Sepultura. Caralho, melhor que isso impossível!

Um dia antes do show, uma colega do Yázigi (não aquela) me liga: “Fabiano, vem no Bar do João tomar uma ceva comigo. Quero te apresentar uma pessoa.” Eu não tava nem um pouco a fim de ir. Tinha o show no dia seguinte e não tava a fim duma noitada muito menos duma ressaca no dia seguinte. “Tu vai se arrepender se não vier”.

Eu fui. E, no dia 3 de novembro de 1994, fiz uma coisa que vou contar pra todos que cruzarem no meu caminho: naquele dia eu tomei uma cerveja quente e ruim junto com o C.J. Ramone.

Dia seguinte, dia do show. Aquela puta fila pra entrar no Gigantinho. Punks, skatistas, headbangers… e eu. O show dos Raimundos foi legal, mas o do Opinião tinha sido bem melhor. Aí veio o Sepultura e o Gigantinho veio abaixo. A pista inteira era uma roda imensa de pogo.

Foi quando eu vi um pênis ambulante vindo na minha direção. O skinhead do show dos Raimundos tinha me encontrado. Botinaço no meu joelho, minha perna girou ao contrário.

Resultado: metade do show do Sepultura e eu puto da cara sentado na arquibancada. O show foi foda, mas o melhor da noite ainda estava por vir.

As luzes todas se apagam. “Hey ho! Let’s go!” em uníssono no Gigantinho. Daí começa a tocar The good, the bad and the ugly, do filme Três homens em conflito, e os Ramones entram no palco.

“One, two, three, four!”, eles começam a tocar. “One, two, three, four!”, eles tocam mais um clássico. É “One, two, three, four!” + um clássico a noite toda.

Como explicar como foi o show dos Ramones é complicado. Ramones é uma banda que está em outro patamar na música universal, é um show que tu não decide se vai ou não. Ir é mais que uma obrigação, é um privilégio.

O show termina, as luzes se acendem e o povo começa a ir embora. De repente, com as luzes acesas mesmo, o C.J., o Johnny e o Marky entram correndo e “One, two, three, four!”, tocam R.A.M.O.N.E.S., do Motörhead.

Eu vejo um tsunami de pessoas se formando na pista, voltando desesperadas pra mais uma música. Pra minha sorte eu ainda estava na arquibancada quando isso aconteceu.

Fim do show, eu me dirigo lenta e dolorosamente pra minha casa, mancando do joelho direito. Dia seguinte, no colégio: no empurra-empurra da saída, bato com o mesmo joelho no corrimão da escada. Excelente. Sábado, na praia, o Charles dá uma voadora pra entrar na piscina e… acerta meu joelho direito. Even better.

E o final do ano chega. Eu, como tinha estudado no Colégio Cruzeiro do Sul desde o jardim de infância, ia receber uma placa na formatura, ia ser homenageado, etc.

Mas como eu rodei em física, nada disso aconteceu.

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1993

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Em 1993 eu tinha 15 anos, e esse foi um dos anos mais importantes da minha vida.

Eu era grunge nessa época. Usava bermudão xadrez, camisa de flanela e, por baixo, uma camiseta de banda. Tinha cabelo comprido, pela metade das costas, e usava cavanhaque.

Eu já tocava guitarra há um ano, mais ou menos, e me achava o guitar hero. Minhas bandas preferidas vinham de Seattle, meus filmes eram violentos. Eu nunca quis tanto ir a um festival de rock quanto o Hollywood Rock de 1993. Nesse ano que teve Nirvana, L7, Red Hot Chilli Peppers, Alice in Chains… era o meu auge musical e meu auge da rebeldia.

Minha mãe tinha certeza absoluta que eu fumava maconha, apesar de nunca ter chegado perto de um baseado. O cheiro me enojava. Me enoja até hoje, na verdade.

Foi no verão desse ano que eu fiquei com a minha major crush da época, numa festa de Miss Brotinho da praia. Passamos alguns meses ficando-quase-namorando, até que resolvemos namorar. Ela terminou comigo menos de um mês depois de termos começado a namorar, no verão de 1994, mas isso é outra história.

Quando eu comecei a ficar com essa guria, no final de janeiro de 1993, sem querer, iniciei uma verdadeira guerra em Arroio Teixeira (a praia que eu veraneio). Pois acontece que essa guria tinha namorado com um marisqueiro um tempo atrás (marisqueiro é o termo que a gente usa aqui no Sul pra designar pessoas que nasceram ou moram na praia), e que ainda era apaixonadinho por ela.

Putz, fui jurado de morte, né? Nunca vou esquecer duma briga que rolou no clube, onde o Júnior levou uma joelhada no saco e saiu carregado, puto da vida. Acho que, nessa confusão, que durou uns 2 ou 3 anos, todos meus amigos acabaram machucados. O Charles teve um dente quebrado numa cabeçada, e por aí vai.

Mas em mim, nunca tocaram.

Passei o verão inteiro ficando com essa guria e ficamos mais várias vezes durante o ano.

O verão terminou e as aulas recomeçaram. Eu estava no segundo ano do segundo grau, mas ainda fazia dependência de física do primeiro ano, no Colégio Cruzeiro do Sul. Dizem que o Érico Veríssimo estudou lá, mas whatever.

No Cruzeiro eu me relacionava basicamente com os freaks, punks e grunges. Passávamos as manhãs falando de música. Ouvíamos muito harcore e íamos frequentemente na Megaforce e na Madhouse atrás de CDs de bandas como Agnostic Front, Sick of it all, Biohazard, NOFX, Bad Religion e coisas assim.

Eu tinha uma pseudo-banda na época. Depois da aula o “pessoal que usava calças largas” se reunia todo num condomínio da Zona Sul pra tocar. Eu atravessava a cidade de ônibus com a minha guitarra Golden Les Paul azul placa de ônibus debaixo do braço pra tocar com eles. O nome da nossa pseudo-banda era Toilet-paper Warriors.

Ok, péssimo, eu sei. Mas a gente se divertia escrevendo músicas que zoavam nossos professores.

A gente era fascinado pelo livro Barulho: uma viagem pelo underground do rock americano do André Barcinski. Era o nosso On the road.

Quando não estávamos falando de música, estávamos assistindo Laranja Mecânica. Como eu tinha dois vídeos na época, aluguei a fita e copiei. Essa fita passou por todo o Colégio Cruzeiro do Sul.

Mas eu era muito deprimido nessa época. Essas reuniões que eram divertidíssimas aconteciam mais ou menos uma vez por mês, na verdade. O resto do tempo eu passava em casa, sozinho, olhando pra parede, ouvindo música ou tocando guitarra.

A música que eu mais me identificava, nesses momentos, era Christie Road, do Green Day:

Staring out of my window
Watching the cars go rolling by
My friends are gone
I’ve got nothing to do
So I sit here patiently
Watching the clock tick so slowly
Gotta get away
Or my brains will explode

Give me something to do to kill some time
Take me to that place that I call home
Take away the strains of being lonely
Take me to the tracks at Christie Road

See the hills from afar
Standing on my beat up car
The sun went down and the night fills the sky
Now I feel like me once again
As the train comes rolling in
Smoked my boredom gone
Slapped my brains up so high

Give me something to do to kill some time
Take me to that place that I call home
Take away the strains of being lonely
Take me to the tracks at Christie Road

Mother stay out of my way of that place we go
We’ll always seem to find our way to Christie Road (reapeat)

If there’s one thing that I need that makes me feel complete
So I go to Christie Road
It’s home

Outros CDs que eu ouvia bastante quando tava deprê eram o Nevermind, do Nirvana, e o Blood Sugar Sex Magik, do Red Hot Chilli Peppers. Ah, saudosos tempos em que o Chilli Peppers era legal…

Naquele ano eu tive um problema sério com uma professora de literatura. Na verdade eu sempre tive problemas com professores, nunca aceitei a autoridade deles e sempre retrucava o que diziam.

Mas nesse ano a coisa foi feia. A vaca tentou me rodar, escondendo uma das folhas da minha prova no exame final. Mas o diretor acabou encontrando a folha e a vagabunda foi demitida.

E assim acabou 1993. Um ano onde nada de mais aconteceu, mas foi um dos anos que definiu a minha personalidade.

Em 94, tudo mudou.

Tomei um pé na bunda, cortei o cabelo, o Kurt se matou e vi os Ramones ao vivo. Mas isso é uma outra história.

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Scream for me, Porto Alegre!

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Minha história com o Iron Maiden vai longe. Tudo começou lá pelos idos de 1984, quando o meu primo Beto voltou a morar em Porto Alegre depois de ter passado uns anos morando em São Paulo.

Um belo dia eu estava na casa dele e o irmão mais velho, o Marcelo, nos chamou, tinha umas músicas pra nos mostrar.

Eu lembro até hoje das músicas (até porque as gravei e as ouvi por anos sem conta!): Running free, The phantom of the opera, The number of the Beast, Run to the hills e Aces high.

Aquilo me marcou de tal forma que nunca esqueci, especialmente Aces high. O Iron tinha entrado na minha vida.

Aí o ano virou e em janeiro teve o primeiro Rock in Rio, com o Iron Maiden fazendo parte das bandas escaladas. Na mesma época teve uma promoção da Pepsi, tu juntava sei lá quantas tampinhas e trocava por um copo personalizado da banda que tu queria.

“Mãe, quero o copo do Iron! Mãe, quero o copo do Iron!”, dizia eu.

Mas pra Porto Alegre só vieram os copos da Nina Hagen (era difícil ser criança em Porto Alegre no início dos anos 80: de todas as coisas legais que tu via na tv, 0% delas vinha pra cá).

O tempo foi passando, eu fui crescendo. Lá por 1988, eu ganhei meu primeiro som, um micro-system com rádio e toca-fitas. Minhas primeiras duas fitas foram, óbvio, do Iron Maiden: Live after death e Seventh son of a seventh son. Eu queria muito o The number of the Beast e o Powerslave mas, ei, eu moro em Porto Alegre e ainda era a década de 80. Já me dei por feliz de encontrar Iron Maiden por aqui.

Vieram os anos 90. Eu e o Beto começamos a tocar guitarra, e o Iron Maiden era presença garantida no nosso repertório privado para zero espectadores. A fita cópia da cópia da cópia da cópia mal gravada do show do Live after death não saía do meu vídeo cassete. Eu não conseguia ver nada direito, cada uma das cópias anteriores tinha sido gravada numa velocidade diferente, mas isso não era um problema, porque, de alguma forma, eu conseguia ver e curtir muito aquele baita show. Pra se ter uma idéia da (falta de) qualidade da gravação, eu só descobri que o Bruce cantava Powerslave usando uma máscara quando ganhei o DVD do Beto agora em janeiro!

Aí veio um dos dias mais marcantes da minha vida: 4 de agosto de 1992. Show do Iron Maiden em Porto Alegre, da Fear of the dark Tour.

O Beto, que vinha mal na escola, ficou de castigo e não pôde ir ao show. Eu, um piá na época, só poderia ir se o Beto fosse. Resumindo: no fatídico 4 de agosto de 1992, eu fiquei em casa, ouvindo meus CDs do Iron, enquanto o povo ia ao delírio no Gigantinho.

No ano seguinte, o Bruce Dickinson saiu do Iron. “Putz, agora já era”, pensei. De novo, o 4 de agosto de 1992 me assombrava. “Eu nunca mais vou ver o Iron como deveria ser”, afinal, Iron Maiden sem Bruce Dickinson não é Iron Maiden.

Em 1994, o novo vocalista: Blaze Bayley, terrível, terrível. Mais uma vez o 4 de agosto de 1992 me vinha à mente: “Perdi de ver aquele showzaço. Bruce Dickinson nunca mais…”

Pra não dizer que não comprei nenhum CD do Iron depois do duplo ao vivo de despedida do Bruce, eu comprei o Best of the Beast, a edição dupla limitada que vinha num estojinho. É claro que eu pulava as duas primeiras músicas, as cantadas pelo Blaze, porque eram ruins demais.

Até que, em 1999, o Bruce retornou ao Iron Maiden e, de novo, pensei no 4 de agosto de 1992. É, o Bruce voltou, mas já era, shows que nem esse só vêm a Porto Alegre uma vez e deu. Mesmo com o Bruce voltando, eu não acompanhei mais o Iron. Ouvia uma música que outra. Era legal, mas nem chegava aos pés daquilo que foi entre o The number of the Beast e o Fear of the dark.

O tempo passou, o Iron veio diversas vezes ao Brasil, mas nada de Porto Alegre. E o 4 de agosto de 1992 continuava me assombrando.

No final do ano passado, no dia da última sessão da minha campanha de D&D, eu fiquei sabendo que o Iron Maiden voltaria ao Brasil, inclusive comentei com o Gabriel, “bem que eles podiam vir pra Porto Alegre, né?”

Dois dias depois, a confirmação: Iron Maiden em Porto Alegre no dia 5 de março de 2008.

Óbvio, enlouqueci. Finalmente. Mas, ainda assim, o 4 de agosto de 1992 me vinha à mente. Diferente da Fear of the dark tour, onde eu conhecia (e amava!) todas as músicas, o set list da A matter of life and death tour me era estranho, só conhecia umas poucas músicas.

Mas eu iria, de qualquer forma. Afinal de contas, era o Iron Maiden.

Daí veio a bomba: a turnê seria em homenagem ao lançamento do DVD do Live after death, dedicada aos clássicos da Era de Ouro e a música mais nova do set list seria Fear of the dark.

Comentei com o Beto pelo MSN e ele enlouqueceu também. Não acreditava. Na verdade eu também não acreditava e, mesmo depois de ter visto o show, continuo não acreditando.

Nos longos meses que ficaram entre o dia em que fiquei sabendo da turnê e ontem, dia do show, volta e meia ficava nostálgico. Pensava nos dias em que eu comecei a ouvir metal, no Marcelo mostrando o Iron pra mim e pro Beto, nas guitar-sessions, na fita mal gravada do Live after death e, claro, no 4 de agosto de 1992.

No Natal de 2007, também conhecido como “Aniversário da minha Mãe”, o Beto foi lá em casa e ficamos falando sobre o show, sobre o Iron com e sem o Bruce e sobre o 4 de agosto de 1992. No meu aniversário o Beto me deu o DVD do Live after death, assistido milhares de vezes já.

E o 5 de março de 2008 chegou. Eu fiquei ansioso como nunca. Nem antes dos Ramones eu fiquei assim. No final da tarde, o Beto veio na minha casa e fomos juntos ao Gigantinho para, finalmente, ver o Iron Maiden.

Eu poderia utilizar vários eufemismos pra descrever o Gigantinho na noite de ontem. Usarei o “um atrolho do cão”, acho que é o mais cabível. O Gigantinho é um lugar pequeno, pavilhão de futsal do Internacional, e ele estava entupido com 15.000 pessoas com camisetas pretas e mais 30 com camisetas de qualquer outra cor.

Veio o show da Lauren Harris, filha do Steve Harris. Legalzinho, mas quem se importa?

As luzes se apagaram. Mãos se erguem, fazendo o chifre. Transylvania tocando no playback com imagens do avião Ed Force One, da banda carregando malas, etc.

As cortinas se abrem e o Winston Churchill começa seu famoso discurso: Lá vem Aces High. Lá vem o Iron Maiden.

E o Iron entra com tudo. O público enlouquece, canta mais alto que a banda. Praticamente sem parar, emendam 2 minutes to midnight. O show era exatamente como eu queria que fosse: Nicko McBrain esmurrando a bateria dando risada, Dave Murray, com sua cara de trakinas, destruindo a guitarra, junto com o Adrian Smith com um colete cheio de pontas, o Janick Gers fazendo aquela performance acrobática, o Steve Harris usando o baixo como metralhadora e o Bruce levantando a mão enquanto cantava as notas mais agudas e comandando o público. Eles nos tinham na palma da mão.

Ver o show do Somewhere back in time é como ir num jogo de futebol em que seu time ganha de 20×0: tu mal acaba de se recuperar do 2 minutes to midnight e já emendam Revelations e The trooper. É uma atrás da outra, um clássico atrás do outro, uma música que cresci ouvindo atrás da outra.

Daí uma cena curiosa. Não sei se foi armada, mas foi algo realmente sensacional: depois de The trooper, um telefone celular voa no palco e o Bruce pega. Eu vou parafrasear ele aqui:

“Hello, mom! Yes, I’m calling from Brazil. Someone’s gonna have a bloody high cellphone bill to pay. I think I’m gonna go home late. Yes, mom. Yes, mom. Mom, I have 15 fucking thousand people waiting here. Yes, mom, I’m with my rock and roll band. Yes, mom. Mom! Mom, I know it’s not a proper job. Mom! Mom! I dont wanna waste my time always searching for those WASTED YEARS!”

E o público vai ao delírio. Mais uma música, mais um clássico. Daí tudo fica escuro e vem o vozeirão: “Woe to you, o earth and sea…”. Milhares de mãos de chifre erguidas no Gigantinho, enquanto acompanham o poema de introdução. A gente ainda recuperava a garganta depois de gritar o “Six, Six, Six! The number of the Beast!” quando o Bruce comandou o “one, two, one two three four, CAN I PLAY WITH MADNESS!”

Depois veio a melhor música do Iron Maiden: Rime of the ancient mariner. Por que ela é a melhor música do Iron? Bom, primeiro porque ela dura, tipo, pra sempre. Segundo porque é uma música foda, oras. Simples assim. Logo depois, a risadona avisando do começo de Powerslave, com direito a máscara e tudo.

Daí veio Heaven can wait, e uma galera subiu no palco. Poxa, eu acompanhei várias promoções pra ver se eu descobria como subir no palco pra cantar o “oooo” em cima do palco, mas não descobri nada! Mas azar, eu tava vendo o Iron Maiden, oras! Daí veio a dobradinha da covardia: Fear of the dark e Run to the hills.

Ver Run to the hills sendo tocada ao vivo é inacreditável. O espaço, a antecipação entre o “Women and children and cowards attack!” e o refrão é um momento em que tudo para, que nem o segundo entre a cabeçada do centroavante que aproveitou a linha de impedimento mal feita, ficando cara a cara com o goleiro e a explosão em uníssono “RUN TO THE HILLS! RUN FOR YOUR LIVES!”

Daí veio a música que dá nome à banda, Iron Maiden. Com direito ao Eddie futurista do Somewhere in time dando tiros de laser na platéia e o fim da primeira parte do show.

Com o bis, veio o último gás. Minhas pernas estavam doendo há tempos, mas só nessa paradinha que eu senti. Minha coluna estava destruída.

O bis começa com o Dave Murray tocando a introdução de Moonchild no violão. Quase todas as luzes apagadas e aquela constelação de isqueiros e LCDs no Gigantinho. Praticamente sem parar, emendam The Clairvoyant. Foda-se o cansaço. Foda-se a dor nas pernas e na coluna. É o Iron Maiden. Então, Hallowed be thy name encerra o show, com o público enlouquecido. É hora da volta pra casa, ao som de Always look on the bright side of life.

No caminho entre o Gigantinho e o carro fui pensando em tudo isso que escrevi aí em cima, em toda a minha história com o Iron Maiden, e tive a certeza de que o 4 de agosto de 1992 estava de saída da minha lista de datas marcantes, dando lugar ao 5 de março de 2008: o dia em que eu fui no show do Iron Maiden e foi do caralho.

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