Sobre o Pearl Jam ao vivo

A verdade é que o rock se perdeu em algum lugar no meio do caminho.

Não existe mais honestidade na música, aquele lance de “vamos pegar nossas guitarras e botar pra foder” (não sei se isso algum dia realmente existiu, mas a sensação que se tem é que um dia foi assim e que hoje não é mais), e não falo só com relação à qualidade da música composta e gravada, mas também e principalmente com relação aos shows.Pude acompanhar o Rock in Rio pela TV uns meses atrás e a energia que as bandas passavam para a plateia é “nós somos fodões e vocês deveriam se sentir privilegiados de poder nos ver ao vivo” (sim, Axl “três horas e meia de atraso” Rose, estou olhando para o senhor), quando na verdade deveria ser ao contrário, elas deveriam se sentir honradas em ouvir 50.000 pessoas cantando as músicas que escreveram.

Aí veio a turnê brasileira do Pearl Jam e eles mostraram o outro lado da moeda. Porque simplesmente botaram pra foder.

Mesmo com altos e baixos na carreira (nos apresentou obras-primas como o Ten e aberrações como o Binnaural), a banda mantém um elemento em constante alto nível: os shows, sempre inesquecíveis. Quando o Pearl Jam subiu ao palco, a impressão que passou é que eles não estavam lá para cumprir agenda de show, mas sim porque queriam tocar um rockão foda e detonar com a galera. E foi isso o que fizeram.

A experiência de conferir o Pearl Jam ao vivo é única, não só pela energia da banda, mas também de forma mais literal, porque com eles não tem essa de “vou ver o setlist na internet pra saber o que eles vão tocar na minha cidade”; cada show é um show, cada show é um setlist, cada show é único, cada show é uma jam session que dura umas 3 horas na qual as músicas de 4, 5 minutos são esticadas para 7, 8 minutos de solos, loucuras e caos.

É comum mudarem o repertório na hora, como em Porto Alegre, quando tiraram Olé e colocaram Oceans e ainda espremeram Crazy Mary no primeiro bis. Ou como em 2005, quando encontraram o Marky Ramone vagando pela cidade e chamaram ele pra tocar I Believe In Miracles. Tudo isso decidido no dia, na hora.

Durante esses improvisos, sabe-se lá o que se passa na cabeça do Eddie Vedder. Escala a estrutura do palco, se pendura a 50 metros de altura, sobe em cima da grua da câmera e se joga na galera, escreve coisas no corpo, e por aí vai.

E tem Daughter, que é um caso à parte. Sempre durante Daughter eles inventam alguma coisa, emendam alguma música. Blitzkrieg Bop, Another Brick In The Wall II, Hunger Strike, Ray Of Light… só pra listar algumas das pérolas que emendam no meio, no fim ou sabe-se lá em que parte da música.
O legal é que a banda tem noção dessa imprevisibilidade que ronda os seus shows e, desde 2000, todos os concertos vêm sendo gravados e colocados à venda no site por um precinho camarada, pra que ninguém perca os momentos históricos de delírio rock and roll.

O Pearl Jam é uma das poucas bandas ainda em atividade que tocam rock como deve ser tocado, como se não houvesse amanhã, como se toda guitarra merecesse ser destruída, como se sempre coubesse mais uma música, como se o rock não fosse uma indústria de fazer dinheiro, mas sim uma celebração.
O rock se perdeu, sim, definitivamente. Mas que bom que temos o Pearl Jam para nos lembrar de como ele deve ser tocado.

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