Sobre 2001: uma odisseia no espaço

Devo confessar que demorei para gostar de 2001. Sempre o achei chato, dormia no meio, etc. Hoje, olhando para trás, acho que isso acontecia porque não me sentia “pronto” para enfrentar a experiência que é 2001: Uma Odisseia no Espaço. Quando completei 30 anos, resolvi dar uma chance a diversas coisas que não gostava, mas que considerava que não tinha dado a devida apreciação.

Dentre elas estava 2001.

Assisti ao filme inteiro, e me deu um estalo. O filme me intrigou, me desafiou. 2001 é uma experiência muito diferente, muito única. Quando se assiste um filme, se busca uma resposta. O mocinho vai derrotar o vilão? O menino vai conquistar a menina? O assassino vai ser descoberto? 2001 não formula pergunta alguma. Ele é insensível e desafiador como o monólito que intriga os primatas do começo do filme.

E, assim como os primatas do começo do filme, fiquei absolutamente intrigado com o que vi. Tanto que, no dia seguinte, assisti ao filme novamente. E, quando o filme acabou, assisti novamente. Busquei explicações, ideias, respostas. Mas todas foram insatisfatórias pelo mesmo motivo: levantavam questões e argumentos que o filme não apresentava, como a teoria do übermensch do Nietzche, por exemplo. Isso não me satisfez, porque eu acredito que um filme deve se bastar em si mesmo; deve ser possível analisá-lo e apreciá-lo somente com as imagens da tela, sem explicações complementares exteriores.

Então me lancei um desafio: intepretar 2001: Uma Odisseia no Espaço somente com o que o filme me mostra. No dia seguinte ao da dupla assistida, assisti novamente, pausando para escrever minhas observações a respeito. Fui capaz de interpretar 99,9% do filme apenas com o que ele me mostra, sem informações exteriores, e é isso que mostro agora.


A aurora do homem

2001 começa com um alinhamento planetário. O Sol, a Terra e a Lua formam uma perfeita linha reta. Neste ponto, ainda somos primatas. Não descobrimos o fogo, nos alimentamos basicamente de vegetais, sementes e raízes. As antas são vistas como “bichos que comem o mesmo que nós”.

Na aurora do homem não estamos no topo da cadeia alimentar. É fácil para um guepardo nos pegar desprevenidos e nos transformar em alimento. Somos tão frágeis que nossas conquistas territoriais são na base do grito. Quem grita mais alto conquista a fonte de água.

O homem está estático. Parado. Inerte. Todo dia é igual. Disputa a grama e as sementes com as antas, evita o guepardo e dorme em grupo. Melhor dizendo: tenta dormir em grupo, porque o grande guepardo está sempre à espreita, com seus rugidos que cortam a noite.

O homem precisa de um empurrão para começar a evoluir.

E o empurrão chega na forma de um monólito negro, perfeito e inerte.

É bom? É mau? Não se sabe. Na verdade pouca diferença faz. Apavorada e cheia de receios, a tribo se reúne ao redor do monólito e o investiga. O desafia. O ameaça.

Só para serem solenemente ignorados pelo bloco negro.

Reunindo toda a coragem, o homem se aproxima e toca o monólito: o primeiro marco fora alcançado.

O objetivo do monólito é fazer com que a gente deixe de ser inerte e comece a fazer alguma coisa da nossa vida. Quase que sem querer, o homem descobre a ferramenta. Mais: descobre que pode usar ferramentas para destruir coisas.

As antas deixam de ser os “bichos que comem o mesmo que nós” para se tornarem “os bichos que nós comemos”. O homem não quer mais mato, sementes e raízes. Na verdade não dá a menor bola pra elas. Agora o homem tem carne. Agora o homem tem sede de sangue.

A disputa de território deixa de ser uma disputa de gritos: se torna uma batalha. Batalha esta que é vencida pelo grupo que melhor usa o que tem ao seu dispor: as ferramentas de destruição. Nessa batalha o homem aprendeu uma importante missão: que muitas vezes é preciso matar para poder viver.

O homem evoluiu um pouquinho naquele dia. Naquele dia o homem despertou para a violência. Impulsionado pelo monólito, o homem passou a querer mais, passou a querer ir além.

O primeiro marco é o planeta Terra. Depois de ter dominado totalmente o planeta (alguém ainda duvida de que o homem há muito tomou o lugar do guepardo no topo da cadeia alimentar?), o homem vai em direção ao segundo marco: a Lua.

No espaço sideral o homem tem que se deparar com uma nova realidade. Apesar das viagens estelares já serem corriqueiras, o homem ainda não se sente totalmente adaptado à vida no vácuo. Em ambientes de gravidade zero, o homem precisa reaprender a caminhar. Precisa reaprender a realizar diversas tarefas, até mesmo as tão corriqueiras quanto ir ao banheiro.

A alimentação do homem no espaço também é diferente. São sucos com sabores e nutrientes artificiais que simulam comidas reais.

Também é de se notar que, mesmo com o avanço imenso do homem, ele ainda permanece ligado à violência, já que quando Floyd sai da estação espacial em direção à Lua percebe-se que as aeromoças (ou deveria dizer espaçomoças?) assistem a um campeonato de artes marciais em uma das televisões.

A viagem de Floyd até a Lua tem um motivo que é guardado a sete chaves: um monólito idêntico ao (já esquecido e há muito perdido) terrestre fora encontrado próximo de Clavius.

A Lua já é dominada pelo homem, existem cidades habitadas no nosso satélite. Como a realidade espacial já está ao nosso alcance, o monólito não é mais visto com terror. É visto com curiosidade sim, mas não temos mais o receio que nossos ancestrais tinham. O monólito não é mais desafiado nem ameaçado: ele é celebrado. Após conquistar o segundo marco tocando o monólito, Floyd e a equipe de astronautas se reúnem ao redor dele para tirar uma fotografia.

Quando um barulho terrível os atordoa. Percebe-se que, no momento do barulho, o alinhamento planetário se formara novamente.


Missão Júpiter: 18 meses depois

Após conquistar o primeiro marco, o homem tinha um objetivo bem definido: chegar à Lua. Mas e depois? Para onde ir? São tantas opções nesse vasto universo que o homem precisou de um sutil empurrãozinho.

O barulho que atordoou Floyd e sua equipe na base lunar os apontou a uma direção: Júpiter.

Então, 18 meses depois, Frank Poole e David Bowman lideram uma equipe de astronautas na missão Júpiter, a bordo da nave Discovery One, controlada pelo onipresente computador HAL 9000 (erroneamente relacionado à marca IBM, quando na verdade seu nome significa Heuristically programmed ALgorithmic computer).

Desde sua ativação em 1992, Hal declarou sentir prazer em trabalhar com humanos, pois considerava desafiador e estimulante. Agora, em uma missão tão longa, e praticamente isolados os três (Dave, Frank e Hal, já que os outros três tripulantes foram colocados em estado de hibernação antes mesmo do início da missão), Hal passa a observar mais atentamente o comportamento dos tripulantes humanos.

Como dito, dos cinco humanos, três estão em estado de hibernação. Respiram uma vez por minuto e o coração bate três vezes por minuto: estranha esta espécie que, para se manter vivo, deve se manter próxima da morte. Isso sem falar na futilidade e vaidade extrema, de tomar banho de sol enquanto assiste, de forma desinteressada, a uma mensagem de feliz aniversário da família saudosa que permaneceu na terra.

Será que uma espécie primitiva e limitada como o homem teria condições de liderar uma missão tão importante e envolta em tantos segredos quanto a missão Júpiter? Será que manter esses animais comandando a Discovery One não é colocar em risco esta empreitada tão importante?

Logo após vencer Dave no xadrez, Hal decide testar a otimização e eficiência da parcela humana da tripulação: ele acusa um defeito na antena de comunicação e faz com que Frank e Dave debatam acerca do problema, cheguem a uma conclusão e efetuem de maneira ótima os devidos reparos.

Ao invés de debaterem e decidirem qual curso de ação tomar, Frank e Dave enviam um relatório da situação à base terrestre para que decidam o que fazer.

Resultado da 1ª fase do teste: INSATISFATÓRIO.

Frank e Dave, ao invés de chegarem a uma conclusão com base nos dados fornecidos e na capacitação pessoal individual, acatam as determinações da base terrestre no sentido de efetuar a troca do componente defeituoso antes que entre em pane definitiva.

Resultado da 2ª fase do teste: INSATISFATÓRIO.

Com as instruções do que fazer, Dave se dirige à cápsula espacial para ir até a antena. Vestido em roupas espaciais, a respiração é defeituosa. A movimentação é desajeitada. Hal precisa auxiliá-lo inclusive nas tarefas mais básicas, como abrir a porta da cápsula. A jornada até a antena é lenta e dificultosa. O reparo é realizado de maneira desajeitada e lenta.

Resultado da 3ª fase do teste: INSATISFATÓRIO.

Após a troca do dispositivo, Frank e Dave verificam que o componente considerado defeituoso por Hal estava em perfeitas condições. Então enviam o relatório do ocorrido à base terrestre, que processa os dados em outra unidade 9000 e chega à mesma conclusão: não havia defeito.

Frank e Dave decidem confrontar Hal a esse respeito, que, por sua vez, se defende e atribui a discrepância de conclusões entre as unidades 9000 à falha humana, pois ele é perfeito e infalível.

Desconfiados do mal funcionamento de Hal, Frank e Dave se isolam em uma das cápsulas, cortam a comunicação externa e discutem sobre Hal, a falha e o que fazer. Fica então decidido que eles iriam recolocar o componente considerado defeituoso para que se confirmasse ou não a pane prevista por Hal e, caso a pane não viesse a ocorrer, desconectariam Hal pela sua falha e pelo risco que ela representa para a missão.

Entretanto a conspiração é detectada por Hal através da leitura dos lábios dos tripulantes.


Intervalo

Talvez a tradução ideal para intermission neste caso seja a missão dentro da missão. A missão dentro da missão é a missão pessoal de Hal de eliminar os componentes defeituosos da Discovery One: os tripulantes humanos.

Frank ingressa na cápsula e vai até a antena realizar a troca do dispositivo considerado defeituoso. Após sair da cápsula, enquanto viaja pelo espaço até a antena, Hal assume o comando da cápsula e arremete contra Frank, cortando seu cabo de oxigênio e o arremessando sem direção pelo espaço.

Para salvá-lo, Dave ingressa às pressas na outra cápsula e vai ao seu encalço. Hal considera-se vitorioso, pois eliminara tanto Dave quanto Frank, os dois humanos despertos, as duas peças defeituosas da Discovery One. As demais peças defeituosas, os três tripulantes hibernantes, são eliminados facilmente, com Hal desabilitando o sistema de suporte de vida da nave.

E eis que Dave retorna à Discovery One, com o corpo de Frank nos braços mecânicos da cápsula. Por óbvio, Hal não autoriza a sua entrada na nave. Depois de tanto trabalho eliminando as peças defeituosas, ele não iria permitir que a missão fosse colocada em risco novamente.

Dentro de sua lógica perfeita, Hal não estava preparado para a irracionalidade humana. Em um movimento desesperador, Dave se lança ao vácuo sem capacete, entrando pela câmara de ar da Discovery One, onde equipa um capacete sobressalente e ruma para a sala de memória de Hal para desativá-lo.

Então Hal surpreende ao fazer uma clara demonstração de que a sua inteligência artificial chegara a níveis de uma legítima criatura viva: ele implora para que Dave não o desative. Ele está com medo, ele está arrependido das decisões que tomara.

Mas Dave, insensível aos apelos de Hal, pratica o mesmo ato que seu ancestral milenar: mata para poder viver. Com o uso de uma ferramenta primitiva (chave-de-fenda), Dave retira os cartuchos de memória de Hal, que agonizante, não tem mais nada a fazer, a não ser cantar.

De todas as situações de 2001: Uma Odisseia no Espaço, a única que não é possível responder utilizando apenas o que o filme nos mostra é a escolha da canção Daisy. Em 1962, o pioneiro na música computadorizada Max Mathews programou um IBM 704 para, usando sistemas de sintetizadores de voz, cantar essa mesma canção. Arthur C. Clarke, impressionado, decidiu usar essa mesma música no filme.

Após desativar Hal, é reproduzida uma gravação que deveria ocorrer apenas quando a Discovery One chegasse a Júpiter e toda a tripulação tivesse sido desperta: o real motivo da missão é investigar o destino de uma transmissão de rádio realizada pelo monolito encontrado na Lua (o barulho atordoante) direcionada a Júpiter. Essa seria a grande evidência de vida extraterrestre.


Júpiter e além do infinito

Após desativar Hal, Dave assume o controle da Discovery One em direção a Júpiter. Na órbita do planeta, um novo marco é ultrapassado: o monólito do vácuo. Com isso, três marcos são batidos pelo homem: o marco da ferramenta, o marco da Lua e o marco do espaço.

Batido o terceiro marco, um terceiro alinhamento planetário ocorre, sendo que, desta vez, o monólito faz parte desse alinhamento.

Ainda na órbita de Júpiter, Dave ingressa na cápsula para tentar uma aterrissagem, mas é atraído não pelo planeta, e sim pelo que existe além dele. É quando ele se depara com a majestade do Infinito, o motivo pelo qual a missão fora enviada.

Dave visita lugares e experimenta sensações que vão além dos limites do seu corpo e da sua mente primata. As visões alienígenas, divinas, oníricas, insanas e aterradoras são demais para ele.

Ciente disto, a entidade com que Dave se depara se apieda e transporta a sua mente para um local seguro, um local familiar para ele, enquanto a sua jornada pelo infinito continua: o confortável quarto de um hotel. O quarto de hotel é uma escolha lógica devido aos longos séculos que a entidade observa o homem, seu comportamento, suas necessidades.

Com a sua sanidade preservada, resta a Dave esperar pelo fim da longa jornada. Ainda desconfiado, Dave demora para aceitar a sua condição de “hóspede”, levando muito tempo para abrir mão de sua vestimenta de “homem do espaço” para, finalmente, assumir a vestimenta de quem faz parte de um todo, não como um invasor nem como um explorador, mas como um integrante legítimo do Universo.

A jornada pelo infinito acaba superando as limitações mortais de Dave. Tanto que, ao avistar o quarto marco, o monólito do Infinito, Dave estica o braço para tocá-lo mas, já muito velho, acaba morrendo antes, no quarto de hotel criado pela entidade para acomodá-lo.

Mas a morte de Dave não foi em vão. A jornada da nave em forma de espermatozóide Discovery One em direção a Júpiter fez com que o homem nascesse para a nova etapa da sua existência, a etapa em que ele irá audaciosamente até onde nenhum homem jamais esteve.

Hoje, não há dúvidas na minha cabeça de que 2001: Uma Odisseia no Espaço é o melhor filme já feito.

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