O Jedi de mil faces

Quando George Lucas planejou a trilogia clássica de Star Wars, em sua mesa de cabeceira havia um livro chamado O Herói de Mil Faces, do mitólogo Joseph Campbell. Esse livro trata da teoria do monomito, que reconhece um padrão nas narrativas heroicas de diversas partes do mundo.

A partir dessa teoria, George Lucas estabeleceu os principais pilares da santa trilogia, transformando Luke Skywalker na personificação do monomito e fazendo com que um jovem fazendeiro de Tatooine se tornasse a representação básica do herói mitológico.

Na construção do monomito, Joseph Campbell estipulou etapas da jornada do herói, facilmente reconhecíveis dentro da trama dos filmes.


O CHAMADO DA AVENTURA

Na mitologia, a jornada do herói se inicia com o “chamado da aventura”, provocado pelo arauto do destino. Essa criatura pode ser qualquer coisa, desde um sapo, um cervo na floresta ou até mesmo uma unidade R2 com uma mensagem que fala “Ajude-me, Obi-wan Kenobi. Você é nossa única esperança.” Quando a história de Guerra nas Estrelas inicia, ocorre uma batalha espacial entre as forças do mal (o Império Galático) e as forças do bem (a Aliança Rebelde), durante a qual a princesa Léia envia um pedido de ajuda para o cavaleiro Jedi Obi-wan Kenobi, no planeta Tatooine. A mão do destino, no papel de negociadores jawa, faz com que a mensagem chegue às mãos do nosso herói, Luke Skywalker, que, ao receber essa mensagem, é colocado em uma busca para salvar a princesa e a galáxia.


O AJUDANTE SÁBIO

Antes de iniciar a jornada propriamente dita, o herói encontrará obstáculos, testes iniciais das suas capacidades, batizados por Joseph Campbell de Guardiões do Limiar. Em “Uma Nova Esperança”, essa figura é representada pelos Tusken Raiders que emboscam Luke enquanto procura por R2D2. E é nessa emboscada que surge outra figura importante na jornada do monomito: o ajudante sábio, ou, no filme, Obi-wan Kenobi.

A função do ajudante sábio é oferecer auxílio sobrenatural e presentear o herói com itens que lhe ajudarão na sua jornada. Kenobi cumpre bem esse papel ao ensinar Luke os caminhos da Força e presenteá-lo com uma arma elegante, para tempos mais civilizados: o sabre de luz de seu pai. É na casa de Obi-wan que a mensagem de R2D2 é destravada e roda por inteiro, dando a Luke a real noção dos acontecimentos da galáxia.

Inicialmente, Luke resiste ao chamado da aventura, mas quando descobre que a sua família fora vítima do Império, decide se unir a Obi-wan na jornada até o porto espacial de Mos Eisley para conseguir transporte até Alderaan, o lar da princesa Léia.


O LIMIAR

O herói deve deixar sua vida familiar para trás para iniciar uma jornada da infância até a vida adulta, e de lá para uma nova vida. O porto de Mos Eisley é o limiar de Luke para a aventura. Lá ele encontra perigo, mas também encontra um herói-parceiro na figura de Han Solo, um pirata contrabandista. O imediato de Han Solo é o wookie Chewbacca. Animais ajudantes como Chewbacca aparecem com frequência em contos de fada, simbolizando a força do instinto natural do herói.

Durante a viagem até Alderaan, Ben começa a treinar Luke nos caminhos da Força.


NO LABIRINTO

O labirinto simboliza a dificuldade da jornada rumo ao desconhecido, e, de uma forma ou de outra, é sempre incorporado na busca do herói. Quando o grupo chega nas proximidades de Alderaan, descobrem que o planeta fora destruído pela Estrela da Morte, uma estação espacial gigantesca. A Estrela da Morte é um labirinto tecnológico: um labirinto de corredores, passagens, salas, corredores sem saída e poços sem fundo.

Como cavaleiros tradicionais, Han e Luke vestem armaduras para cumprir sua primeira missão heroica: salvar a princesa em perigo.


MISSÕES HEROICAS

O próximo passo na busca do herói é o combate mortal. Durante o escape da Estrela da Morte, Obi-wan se depara com Darth Vader; enfrenta-o em um duelo e morre em combate.

A morte de Obi-wan Kenobi representa um ritual de passagem para Luke, pois era o último elo que possuía com Tatooine, sua casa. Após ser resgatada, Léia leva Luke e Han até a base rebelde para planejar um ataque à Estrela da Morte, onde Luke se une aos pilotos da Aliança Rebelde. Ao vestir o uniforme, Luke coloca de lado sua identidade jovem para assumir um novo papel: um piloto heroico, pronto para sacrificar sua vida em prol de uma causa.

No fim, o bem triunfa sobre o mal e os heróis são reconhecidos por seus atos valorosos. Este momento é o fim de uma aventura, mas também representa o início do próximo estágio: a iniciação no caminho de provas.


O CAMINHO NEGRO DE PROVAS

Na metade do caminho da jornada do herói existe um longo e perigoso caminho de provas, testes e experiências penosas que trazem importantes momentos de iluminação e entendimento. Várias vezes no caminho, monstros devem ser derrotados e barreiras, ultrapassadas. Finalmente, o herói deve realizar a temível jornada da descida até as trevas.

Apesar de a Estrela da Morte ter sido destruída, os poderes da escuridão não foram derrotados. O Império perseguiu os rebeldes até o planeta gelado de Hoth, onde os heróis encaram novos perigos, como criaturas predadoras e o clima inóspito, e são forçados a fugir durante um ataque imperial.


O VENTRE DA BALEIA

Um motivo mítico particular é o “engolimento” do herói por um grande monstro. Isto representa a entrada em um mundo místico onde transformações ocorrem, e a escapada final representa um renascimento espiritual. Han e Léia são perseguidos por Star Destroyers imperiais e TIE fighters quando deixam Hoth. Para escapar, Han pilota a Millennium Falcon para dentro de uma “caverna” em um asteroide, que acaba por ser a boca de um imenso verme espacial.

Vader também passa por uma mudança neste ponto, quando emerge da sua câmara de meditação. O Imperador aparece para ele através de uma mensagem holográfica, e Vader é revelado como um servo das forças malignas do Império, ao invés de seu mestre supremo.

A Árvore Sagrada é outro motivo mítico: representa uma situação na qual o herói sofre uma transformação. Povos antigos acreditavam que as árvores eram cheias de energia criativa, e, por isso, na mitologia florestas simbolizam mistério e transformação, sendo ainda lares para feiticeiros e encantadores. Quando Luke deixa Hoth, ruma para o planeta Dagobah, para iniciar um treinamento com um mestre Jedi, Yoda. A marca de Dagobah são suas árvores imensas e de formas estranhas. Florestas também podem simbolizar a mente inconsciente, onde existem segredos a serem descobertos, e talvez emoções sombrias a serem confrontadas. Nessa floresta, Luke enfrenta uma imagem de Vader, antecipando seu combate com o Senhor do Lado Negro mais tarde na história.


SACRIFÍCIOS

Abrir a mente e o coração para o conhecimento espiritual requer um sacrifício por parte do herói. Nesta parte difícil e perigosa da jornada, Han e Luke reafirmam o significado e importância de suas vidas pela disposição deles em se sacrificar. O perigo da ilusão é simbolizado pela Cidade das Nuvens sobre o planeta Bespin. Por fora, a Cidade das Nuvens é transcendental, quase etérea. Por dentro, é claustrofóbica e confusa, denunciando a escuridão que existe em suas entranhas.

Vader segue a Millennium Falcon até Bespin, onde atrai Luke para uma armadilha. Han é capturado; colocado em hibernação na câmara de congelamento em carbonite e levado pelo caçador de recompensas Boba Fett para ser entregue ao antigo chefe de Han, Jabba, o Hutt. O amigo de Han, Lando Calrissian, que o traiu em favor de Vader, buscará a redenção iniciando sua própria jornada heroica.


A TRILHA DA COMPENSAÇÃO

A jornada do herói às vezes inclui uma “busca pelo pai”. Após muitos desafios e experiências penosas, o herói encontra seu pai, e começa a compreender melhor como ele pensa, e se coloca em seu lugar. Esse processo é chamado compensação, e, no caso, Luke seguirá os passos de seu pai como um piloto heróico e cavaleiro Jedi, e encontrará a resposta para o enigma da árvore sagrada: o Lado Negro ameaça corrompê-lo assim como corrompeu seu pai, Darth Vader. Luke percebe que deve se sacrificar em vez de se tornar uma ferramenta do mal como Vader. Léia o resgata após cair por um fosso da Cidade das Nuvens, e quando Vader o contata através da Força, Luke o chama de Pai — eles iniciaram o caminho da reconciliação. Luke reconheceu o seu próprio Lado Negro como parte de seu destino, e Darth Vader iniciou sua própria jornada em direção à transformação.


O RETORNO DO HERÓI

O “retorno do herói” marca o fim do “caminho de provas”. O herói deve retornar das suas aventuras com o fim de beneficiar sua sociedade, assim como Luke volta para Tatooine para resgatar Han das garras de Jabba. Esta não é uma transição simples para Luke: suas novas habilidades como um cavaleiro Jedi são contestadas tanto pelos amigos quanto pelos inimigos. Durante a história, todos os personagens passam por mudanças: Han é retirado de sua tumba de carbonite, Lando se redime pela sua traição ao ajudar no resgate de Han, e Léia garante o fim do reinado tirano de Jabba ao destruí-lo.


A SOMBRA SE ERGUE

Os heróis não são os únicos que podem passar por mudanças e renascimento. As forças do mal também podem recuperar seus poderes e crescer com novas forças: enquanto os rebeldes continuam a sua luta contra a tirania imperial, o Império está construindo uma nova Estrela da Morte. As forças do bem, representadas por Mon Mothma, líder da Aliança Rebelde, e as forças do mal, lideradas pelo Imperador, se reagrupam para planejar suas estratégias para o confronto final. Luke descobre que Léia, que o guiou e o apoiou durante a sua jornada, é sua irmã gêmea. Em muitos aspectos isto representa seu bom “anima”, a personificação dos aspectos femininos de sua psiquê. Ele também descobre que deve enfrentar Vader novamente. Quando se contactam mentalmente através da Força, Vader aparenta estar mais incerto que agressivo — um sinal de que ele está iniciando uma transformação.


A FLORESTA ENCANTADA

Os habitantes de uma “floresta encantada” podem ser perigosos ou prestativos. O herói deve saber qual magia para evocar seus poderes de proteção, e Luke ganha a ajuda dos ewoks, os pequenos habitantes peludos da lua florestal de Endor, utilizando C3PO como uma espécie de arauto. Os ewoks provam que os heróis podem vir em qualquer forma e tamanho, combatendo a alta tecnologia do Império com troncos, pedras e cipós. O ambiente verdejante e sua harmonia com a natureza fazem um contraste com a tecnologia fria e austera do Império. Os ewoks ajudam os rebeldes a desativar o gerador do escudo da Estrela da Morte para que Lando possa se infiltrar em seus corredores com a Millennium Falcon e destruir o gerador central. Enquanto isso, Luke descobre que deve trilhar um caminho diferente do de seus amigos: tentar chegar à parte de Vader que ainda é seu pai e tirá-lo do Lado Negro da Força.


O CORAÇÃO DAS TREVAS

Os heróis devem, finalmente, adentrar “o coração das trevas”, o reduto do mal, para destruir a sua fortaleza. Quando Han e Léia finalmente destroem o gerador de energia do escudo, Lando e Wedge adentram a Estrela da Morte para atingir o gerador central da estação espacial. Enquanto o conflito continua em volta da estação espacial, Luke luta contra as forças do mal dentro dela, travando um conflito espiritual em sua batalha de vontades contra o Imperador.


A VITÓRIA FINAL

A destruição do mal nem sempre é alcançada através da força física ou da esperteza. Sempre há a esperança de que aqueles que se entregaram às forças do mal possam ser redimidos. Em seu confronto com Vader e o Imperador, Luke vence não através de suas habilidades como guerreiro, mas através de um apelo ao coração de seu pai. É Vader quem mata o Imperador para salvar seu filho. Máscaras são frequentemente partes de rituais míticos, e a máscara de Darth Vader faz parte de sua personalidade maligna. O pedido para que Luke remova sua máscara representa a sua libertação de seu papel, uma libertação que vem a ele apenas no momento da morte. Ainda, esse gesto é também uma afirmação de vida, a abertura final entre pai e filho. Enquanto os rebeldes e os ewoks celebram sua vitória sobre o Império, Luke queima o corpo de seu pai em uma pira funerária. O espírito do pai de Luke, Anakin Skywalker, se junta aos espíritos de Obi-wan e de Yoda. Luke alcançou o triunfo final da jornada do herói mítico — ele trouxe de suas aventuras os meios de se restaurar a sua sociedade.


O FIM DA JORNADA

No final, a humanidade triunfou sobre um sistema repressivo, monolítico, e Luke, através de sua jornada de herói, abriu a sua vida para a compaixão e foi bem sucedido ao seguir um caminho espiritual entre a luz e as trevas, bem e mal.

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