Lamestain: minha playlist obsessiva de rock alternativo dos anos 90

Gosto de categorizar playlists em três tipos: obsessivas, semi-obsessivas e fuck this shit.

As obsessivas têm um propósito, as músicas selecionadas devem ser escutadas em uma ordem determinada, não no aleatório, elas contam uma história, têm altos, baixos, mudanças de humor e zonas de conforto e de desconforto. Uma playlist obsessiva não tem o objetivo de ser completa; tão importante quanto as músicas que se opta por colocar são aquelas que se opta por deixar de fora.

As semi-obsessivas têm critérios mais soltos, geralmente orbitam um determinado tema, mas a sua construção é mais livre, em que a sequência das músicas não importa, pois foram feitas para serem escutadas no aleatório.

As fuck this shit são totalmente sem critério, cabendo na mesma sequência Molejo, Slayer e, sei lá, Depeche Mode.

No caso, quero me deter às obsessivas, em particular à minha playlist obsessiva de rock alternativo dos anos 90. Ao escolher as músicas dessa playlist, estabeleci os seguintes objetivos: não repetir artistas, ter 30 músicas e manter o limite de tempo de duas horas. No caso, o último critério bateu na trave, porque a playlist fechou em 122 minutos.

O nome da playlist, Lamestain, vem de uma piada interna do grunge. Em novembro de 1992, no auge da explosão do grunge e do rock alternativo dos anos 90, um repórter do New York Times ligou pra Sub Pop, principal gravadora da época, para entrevistar o dono. Ele foi atendido pela recepcionista, que mentiu que era a dona da Sub Pop. Mas não foi só isso que ela inventou. Questionada sobre gírias grunge, a Megan inventou na hora toda uma lista de palavras com seus significados, só para sacanear o repórter.

Dentre elas estava Lamestain, que significa “perdedor”. A matéria foi publicada e até hoje é alvo de piadas internas.

Mas, mais importante que tudo isso, eis as músicas da playlist e o porquê de eu ter escolhido cada uma delas:

1. Would? — Alice in Chains (Dirt)

Pra mim, Would? é a música que melhor define o rock alternativo dos anos 90. Lenta, pesada, mas extremamente pop. Se alguém me pedisse para mostrar o que é grunge em uma música, com certeza a minha escolha seria essa.

2. Nearly Lost You — Screaming Trees (Sweet Oblivion)

Essa é daquelas músicas excelentes mas que caíram no esquecimento (assim como a banda, também excelente e também esquecida). Ela mantém o clima grunge clássico iniciado por Would?, mas também é bastante acessível.

3. Hunger Strike — Temple of the Dog (Temple of the Dog)

A melhor música dos anos 90, sem dúvida. A junção do Soundgarden com o que sobrou do Mother Love Bone resultou em um disco incrível, e essa música ainda conta com a participação do Eddie Vedder, responsável por transformar o resto do MLB em Pearl Jam.

4. Diet Pill — L7 (Bricks are Heavy)

É aqui que o desconforto começa. Diferentemente do hard rock acessível das três primeiras músicas, Diet Pill é um sludge metal como deve ser: lento, extremamente pesado e com vocais chapados.

5. Rehab Doll — Green River (Dry as a Bone/Rehab Doll)

Depois do desconforto inicial de Diet Pill, Rehab Doll é a música que faz o ouvinte iniciante a questionar o que está escutando. Tosca, pesada e lenta, esse é o grande clássico da Green River, a banda que iniciou o que depois veio a ser conhecido como o grunge.

6. Night Goat — Melvins (Houdini)

Melvins é uma banda incrível, uma das mais importantes do rock alternativo noventista. Na época do Houdini, seu grande clássico, o Melvins ainda adotava uma postura mais conservadora em suas músicas (hoje a banda conta com dois bateristas, que criam a parede sonora que dá sustentação aos riffs do Buzz Osborne), lembrando um pouco o Black Sabbath do final dos anos 60.

7. Outshined — Soundgarden (Badmotorfinger)

Depois de três músicas relativamente difíceis, uma mais tranquila, da grande banda Soundgarden. Mas, ainda assim, Outshined é pesada e lenta, mantendo o clima sludge das anteriores.

8. Mouth Breather — The Jesus Lizard (Goat)

The Jesus Lizard tem uma pegada mais rock do que Soundgarden, mas com um vocal nervoso, no bom sentido.

9. Lose — Guntruck (Push)

Guntruck é uma daquelas bandas sensacionais mas que ninguém conhece. Um rockão sincero e pesado, como deve ser tocado. E Lose é uma música incrível, incrível.

10. Gentlemen — The Afghan Whigs (Gentlemen)

Outra grande banda das boas. The Afghan Whigs tem uma carreira muito sólida e nunca caíram na zona de conforto. Gentlemen é seu disco mais clássico, de quando estavam no auge da criatividade.

11. Aneurysm — Nirvana (Incesticide)

É complicado não ser óbvio ao escolher uma música do Nirvana para se colocar em uma playlist. Optei por Aneurysm não só por ser a última música do disco mais subestimado da carreira da banda, mas também por ser uma música incrível e que muitas vezes acaba escapando do radar.

12. The Scratch — 7 Year Bitch (Viva Zapata!)

7 Year Bitch é uma banda divertida, sem grandes pretensões ou desafios artísticos. Mas nem tudo precisa tirar o ouvinte da zona de conforto, às vezes um rock pesado é tudo o que se precisa para ser feliz.

13. Mr. Liberty (With Morals) — Malfunkshun (Return to Olympus)

Antes de existir o grunge, antes de existir o rock alternativo, antes de existir os anos noventa, existia o Malfunkshun. Essa é a banda que começou tudo. Mesmo com uma pegada glam, as raízes do que viria a ser o 90’s Alt Rock estão aí.

14. Wicked Garden — Stone Temple Pilots (Core)

Resisti bravamente à obviedade de escolher Plush.

15. Burn a Hole — Skin Yard (10000 Smiling Knuckles)

O Skin Yard se enquadra entre o Green River e o Guntruck: é uma das bandas que ajudou a definir o que viria a ser o grunge, ao mesmo tempo em que é absurdamente incrível e que merece ser ouvida.

16. Touch Me I’m Sick — Mudhoney (Superfuzz Bigmuff With Singles)

Touch Me I’m Sick não é uma música, é uma instituição do grunge, assim como o Mudhoney. Está tudo ali, pedais fuzz, gritos, anarquia e caos. O Mudhoney representa o outro lado da moeda grunge em comparação com o Melvins. Enquanto Melvins é lento, inevitável e controlado, o Mudhoney é rápido, destruidor e caótico.

17. Killing in the Name — Rage Against The Machine (Rage Against The Machine)

Dando um tempo no grunge, pensei em um intervalo puxando para um lado funk o’metal, e Killing in the Name é o grande clássico desse subgênero do rock alternativo dos anos 90.

18. My Name is Mud — Primus (Pork Soda)

Essa música é muito estranha, mas muito original. Assim como tudo o que o Primus faz.

19. Stone Cold Bush — Red Hot Chili Peppers (Mother’s Milk)

Quando pensei em qual música do Chili Peppers colocar, tinha uma certeza: seria do Blood Sugar Sex Magik para trás, porque o grande defeito do RHCP atual é que não fazem mais músicas porrada a la Suck My Kiss… e Stone Cold Bush. No caso, Stone Cold Bush, além de pesada, tem um suíngue que falta em Suck My Kiss, e por isso a escolhi.

20. Sabotage — Beastie Boys (Ill Communication)

Beastie Boys é uma banda incrível, e Sabotage representa o ápice do crossover rap-hardcore que eles sempre apresentaram.

21. Crane’s Café — Tad (8-way Santa)

Tad é outra banda clássica dos primórdios do grunge. Puxando para uma veia mais rock and roll, Crane’s Café é uma música muito divertida, provavelmente a mais feel good desta playlist.

22. Cannibal — Scratch Acid (The Greatest Gift)

Essa música parece que foi gravada de trás pra frente e depois invertida, lembrando um pouco o estilo do Man From Another Place, do Twin Peaks. Sim, é muito estranha.

23. I Don’t Know Anything — Mad Season (Above)

O Mad Season foi uma superbanda do grunge, misturando membros do Alice in Chains, Soundgarden e Screaming Trees. O som deles era bem diferente do resto, puxando mais para um clima acústico e depressivo. Essa é a música mais pesada da banda.

24. Drown — Smashing Pumpkins (Rotten Apples)

Smashing Pumpkins quando é uma explosão de raiva é muito bom, mas quando é uma apatia depressiva é incrível. E é por isso que escolhi Drown, uma das músicas mais depressivas da banda.

25. The Wagon — Dinosaur Jr. (Green Mind)

Gosto muito, mas muito mesmo, de Dinosaur Jr. Gosto do vocal do J. Mascis, com sua guitarra powered by Big Muff, dos vocais do Lou Barlow e da bateria do Murph. E essa música sintetiza tudo o que a banda faz de melhor.

26. Jane Says — Jane’s Addiction (Nothing Shocking)

Essa é uma música incrível, daquelas de levantar o espírito e cantar todo mundo junto abraçado. Mas ela está aqui cumprindo duas funções, e a segunda é preparar o ouvinte para o inferno das duas próximas músicas.

27. Death Valley ’69 — Sonic Youth (Bad Moon Rising)

Essa é uma das músicas mais difíceis desta playlist, e ela é o make it or break it do ouvinte. Macabra, lenta e barulhenta, Death Valley ’69 vai criar uma opinião na cabeça do ouvinte. Sabe-se lá qual.

28. Ariel — Babes in Toyland (Nemesisters)

Se Death Valley ’69 complicou a vida do ouvinte, Ariel tem o objetivo de torná-la um inferno. A essa altura, já se espera uma maturidade auditiva, depois de tudo o que já se mostrou, e Ariel é o teste definitivo disso.

29. State of Love and Trust — Pearl Jam (Live on Ten Legs)

Essa música é a recompensa para quem sobreviveu às duas anteriores. Divertida e irresponsável, Sate of Love and Trust foi feita para ser ouvida nas versões ao vivo. Representa também um pouco da loucura da música daquela época, porque é uma feel good music que fala de esquizofrenia e suicídio.

30. Chloe Dancer/Crown of Thorns — Mother Love Bone (Apple)

Para acabar, uma balada épica de 9 minutos, porque, assim como o Mother Love Bone, tudo acaba em morte.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s