Holocausto Canibal

Eu estava determinado a não assistir Holocausto Canibal quando passou no Fantaspoa de 2006. Então, na quinta feira eu fui até a Casa de Cultura Mário Quintana pra ser entrevistado por uma mestranda em Educação que estava fazendo a sua dissertação sobre leitores de Tolkien. A entrevista acabou e eu olhei no relógio: 14:55.

Daí, não sei porque, me passou pela cabeça “Bah, daqui a 5 minutos vai ter uma sessão do Holocausto Canibal ali no Santander… eu consigo ver o cinema daqui, ó!”

Pois quando eu vi, eu já tava com o ingresso na mão, entrando no cofre antigo do Santander, reformado e transformado em uma sala de cinema.

Dois reais o ingresso.

Bom, primeiro eu vou falar um pouco do filme em si, pra depois falar da sessão.

O Holocausto Canibal é uma produção de 1980, dirigida pelo italiano Ruggero Deodato, e custou em torno de US$ 100.000,00 e, segundo o diretor, arrecadou mais de US$ 200.000.000,00 desde sua estreia, tornando-o o segundo filme mais rentável de 1980, atrás apenas de O Império Contra-ataca.

A trama é muito parecida com a da Bruxa de Blair. Ou melhor, a trama da Bruxa de Blair é muito parecida com a do Holocausto Canibal: um grupo de documentaristas ingressam na floresta amazônica, mais precisamente na área conhecida como Inferno Verde, para fazer um filme, e desaparecem. Meses depois, uma outra equipe é enviada para tentar resgatá-los e encontram os rolos de filme.

É interessante de se perceber as diferentes abordagens das duas equipes, bem como os resultados dessas abordagens. A equipe de resgate utilizou meios diplomáticos, pacíficos, pra se comuicar com uma das tribos canibais. Enquanto isso, a equipe anterior, a de filmagem, utilizou da brutalidade e da imposição moral por força do medo. De resultado, enquanto a primeira teve um contato tranquilo com a tribo, participou de rituais e ganhou presentes (os rolos do filme), a segunda recebeu de volta a brutalidade, sendo massacrada pelos canibais.

O filme é um espetáculo de carnificina e horror. A cena mais light é quando os cineastas homens (no grupo tinha apenas uma mulher) estupram uma índia, que depois é encontrada empalada (ó a foto ali em cima). De troco, a tribo canibal sequestra a mulher do grupo, a estupra em massa e depois a decapitam.

O filme gerou muita controvérsia, sendo até considerado como um filme snuff, devido ao realismo e à brutalidade mostrada. Uma semana depois da estreia, o Ruggero Deodato foi preso, sob alegações de que um dos atores efetivamente morreu na frente da câmera e de que a cena da empalação foi real. Pra piorar a situação do diretor, os atores assinaram um contrato que os impedia de atuar em produções por um ano, a contar da estreia do Holocausto Canibal. O Ruggero acabou provando sua inocência, mas em 1993, durante uma comic-fair em Birmingham, as autoridades confiscaram o filme, sob alegações de que o ator Perry Pirkanen fora drogado e que os aborígenes haviam sido autorizados a mutilá-lo como preferissem.

Além da violência gráfica do filme, boa parte da controvérsia foi gerada devido às mortes gratuitas de diversos animais no decorrer do filme:

– Um coatimundi foi morto e estripado;
– Uma tartaruga foi decapitada, desmembrada, estripada e assada;
– Uma cobra foi picotada;
– Uma aranha foi esmagada;
– Um sagui é capturado e, enquanto se debate, tem o tampão do crânio cortado com uma machadinha e seu cérebro é comido;
– Um porco é chutado e depois morto com um tiro de rifle na cabeça.

Segundo o IMDb, o Holocausto Canibal ainda encontra-se banido e censurado em diversos países:

País___________Status_________Versão
Islândia________Banido________Todas as versões
Alemanha______Banido________Versão sem censura
Malásia________Banido________Todas as versões
N. Zelândia_____Banido________Todas as versões
Filipinas_______Banido_________Todas as versões
Singapura______Banido________Todas as versões
África do Sul____Censurado_____Versão sem censura
Inglaterra______Banido_________Versão sem censura

Países que anteriormente baniram o Holocausto Canibal:

País___________Status___________Tempo de banimento___Versão
Austrália_______Desbanido_______1984–2005___________Sem cortes
Finlândia_______Desbanido_______1984–2001__________Sem cortes
Irlanda_________Desbanido_______1984-????___________Sem cortes
Itália___________Desbanido_______1980–1984__________Sem cortes
Noruega________Desbanido_______1984–2005__________Sem cortes
Inglaterra_______Desbanido_______1984–2001____Severamente censurado
África do Sul____Censurado_______198?-????______Severamente censurado
Alemanha_______N/A____________1984–1990_____________N/A

Agora deixa eu falar um pouco da sessão em si. A sessão tava lotada, óbvio. O Holocausto Canibal era a grande estrela do Festival de Cinema Fantástico. A sessão que passaria às 19 horas então, nem se fala, porque sessões comentadas sempre lotam. Mas uma coisa me chamou a atenção, a respeito do público. Eu esperava ver geeks, nerds e “pessoas que andam por aí com livros debaixo do braço”, como conceitua a Dani.

Mas não. O grosso do povo eram velhos. Velhos tipo 70 anos.

Foi uma experiência única, essa sessão. O povo estava visivelmente desconfortável durante o filme. Inquietos. Eu mesmo estava inquieto. Ficava o tempo inteiro tentando me acomodar na poltrona. O clima pesou mesmo. Na cena da tartaruga, ouvi soluços de choro, tosses, engasgos e um “uuuuhgggg!”, de vômito. Mas acho que foi fake, já que não teve cheiro. O Ruggero quer te chocar mesmo. A trilha sonora do filme é absurdamente bizarra. O volume e o noise da música aumentam absurdamente nas cenas mais violentas, pra incomodar mesmo. Eu ficava encolhido na poltrona, abismado com o estupro visual e sonoro que é o filme.

A sessão acabou, as luzes se acenderam. Em vez do tradicional blá blá blá de saída de cinema, todo mundo saiu quieto, cabisbaixo, como se estivesse carregando um bloco de concreto nas costas, só pensando no que acabaram de assistir.

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